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Naltrexona-bupropiona (Contrave): o fármaco que age no comer emocional

Contrave entrega 5 a 8 por cento de perda de peso, modesto vs GLP-1, mas único aprovado que age direto na via dopaminérgica e opioide. Para o paciente que come por estresse e recompensa, é fármaco diferente.

# A paciente que come no fim do expediente, todo dia, mesmo sem fome

A executiva de 41 anos chega ao consultório do endocrinologista em Belo Horizonte com IMC 32. Não tem diabetes, hipertensão controlada, lipidograma quase normal. A queixa não é fome. É um padrão claro: por volta das 19 horas, no fim de uma reunião difícil, ela abre a geladeira e come. Não tem fome física. Tem necessidade emocional. Já tentou força de vontade, terapia cognitiva e mindful eating. Funcionou em parte. O endocrinologista escuta com atenção e pergunta se ela já considerou Contrave.

Naltrexona-bupropiona é o fármaco menos discutido entre as opções aprovadas para obesidade no Brasil. Não tem a magnitude de perda de peso de GLP-1 ou tirzepatida. Não tem a história de prevenção de diabetes de metformina. Mas tem um nicho específico que nenhum outro ocupa: pacientes em que o comportamento alimentar é dominado por componente hedônico, emocional, de recompensa cerebral. Para esse perfil, Contrave é fármaco diferente.

Este artigo cobre o mecanismo dual de naltrexona e bupropiona, a evidência clínica dos ensaios COR, as contraindicações importantes (epilepsia, opioides, alguns transtornos alimentares), o perfil de paciente ideal e o custo realista no Brasil de 2026.

# A tese contraintuitiva: nem todo paciente com obesidade tem o mesmo problema biológico

A indústria farmacêutica adora um fármaco que sirva para todos. GLP-1 e tirzepatida quase entregaram isso: magnitude grande de perda de peso em populações amplas. Mas o consultório real mostra heterogeneidade. Pacientes com mesmo IMC podem ter caminhos biológicos diferentes para chegar lá. Resistência à insulina dominante. Sinalização incretínica deficitária. Comportamento alimentar guiado por recompensa hedônica e ansiedade.

Para o paciente cuja comida funciona principalmente como modulador emocional, a redução de fome física que GLP-1 entrega é parcialmente útil mas pode não ser suficiente. O barulho da comida na cabeça muitas vezes diminui com semaglutida ou tirzepatida, mas o gatilho de estresse permanece, e em uma parcela dos pacientes ele encontra outra válvula (bebida, ansiolítico, episódio compulsivo apesar do GLP-1).

A naltrexona-bupropiona não substitui GLP-1. Ela ocupa um espaço diferente. Em paciente com perfil claramente hedônico, com transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP, BED) leve a moderado ou com forte componente emocional do comer, Contrave pode entregar resposta melhor do que sua magnitude média de eficácia sugere.

Para o paciente cuja comida funciona como modulador emocional, naltrexona-bupropiona ocupa nicho que GLP-1 não cobre integralmente.

# Mecanismo: como antagonismo opioide e modulação dopaminérgica reduzem recompensa da comida

Contrave é combinação de dois fármacos antigos em formulação de liberação prolongada. Naltrexona, antagonista de receptores opioides mu, kappa e delta, foi originalmente desenvolvida para alcoolismo e dependência de opioides. Aprovada nos EUA em 1984. Bupropiona, inibidor de recaptação de dopamina e noradrenalina, foi originalmente desenvolvida como antidepressivo (Wellbutrin) e depois como auxiliar de cessação tabágica (Zyban). Aprovada nos EUA em 1985.

A combinação tem mecanismo neurobiológico convergente em circuitos de recompensa do mesencéfalo, especialmente no núcleo arqueado do hipotálamo e no sistema mesolímbico. Bupropiona aumenta atividade de neurônios POMC (pró-opiomelanocortina), produtores de alfa-MSH, peptídeo que reduz apetite e aumenta saciedade. Naltrexona, ao bloquear feedback opioide negativo sobre POMC, prolonga e amplifica esse efeito (POMC se inibe via beta-endorfina autócrina; naltrexona desliga essa inibição).

Em circuitos mesolímbicos (área tegmental ventral, núcleo accumbens), bupropiona aumenta dopamina extracelular, modulando recompensa hedônica. Naltrexona reduz amplificação opioide do prazer alimentar. O efeito subjetivo descrito por pacientes em ensaios COR não é fome reduzida, é redução do desejo emocional por comida específica (doces, ultraprocessados, recompensas), com menos urgência compulsiva em momentos de estresse.

Diferente de GLP-1, naltrexona-bupropiona não atua sobre esvaziamento gástrico nem sobre secreção de insulina. Não é fármaco para resistência à insulina. Não tem efeito cardiovascular comprovado em ensaios de desfecho (CV outcome trials). É fármaco neuropsiquiátrico aplicado ao comportamento alimentar.

# COR-I e COR-II: a evidência de fase 3 que estabeleceu Contrave

Os ensaios COR (Contrave Obesity Research) formaram a base regulatória da combinação. COR-I (Greenway et al., Lancet 2010, PMID 20673995, DOI 10.1016/S0140-6736(10)60888-4) randomizou 1.742 adultos com obesidade (IMC 30 a 45) ou sobrepeso (IMC 27 a 45 com comorbidade) para naltrexona 16 mg + bupropiona 360 mg, naltrexona 32 mg + bupropiona 360 mg ou placebo, por 56 semanas.

Perda média de peso no grupo de dose plena (NB32, 32 mg de naltrexona + 360 mg de bupropiona): 6,1 por cento vs 1,3 por cento no placebo. Em análise por intenção de tratar com últimos valores carregados, foi 5,0 por cento. Aproximadamente 48 por cento dos pacientes em NB32 perderam pelo menos 5 por cento do peso, vs 16 por cento no placebo. Melhora em circunferência abdominal, triglicerídeos, HDL e marcadores de glicemia.

COR-II (Apovian et al., Obesity 2013, DOI 10.1002/oby.20309) estendeu para 1.001 pacientes em 56 semanas com NB32. Perda média de 6,4 por cento vs 1,2 por cento no placebo. Resultados consistentes com COR-I.

COR-BMOD (Wadden et al., Obesity 2011, DOI 10.1038/oby.2010.147) testou NB32 combinado com intervenção comportamental intensiva. Perda média subiu para 9,3 por cento, sugerindo sinergia entre fármaco e terapia comportamental. Este resultado é talvez o mais relevante clinicamente: Contrave funciona melhor em paciente engajado em terapia comportamental ou cognitiva.

COR-Diabetes (Hollander et al., Diabetes Care 2013, DOI 10.2337/dc12-1813) avaliou em diabetes tipo 2. Perda de 5,0 por cento e melhora em HbA1c de 0,6 ponto. Efeito metabólico discreto comparado a GLP-1.

Aprovação FDA do Contrave em setembro de 2014. EMA em 2015 com nome Mysimba. Anvisa aprovou em 2016 com nome Contrave, indicação para IMC maior ou igual a 30 ou IMC maior ou igual a 27 com comorbidade.

# Perfil ideal: quem responde melhor a naltrexona-bupropiona

A magnitude média da perda de peso com Contrave (5 a 8 por cento em 56 semanas) é modesta comparada a GLP-1 (15 por cento) ou tirzepatida (20 a 22 por cento). Mas a média esconde heterogeneidade. Aproximadamente 30 por cento dos pacientes em Contrave perdem 10 por cento ou mais. A questão clínica é: como identificar antes quem responderá bem?

Subanálises dos ensaios COR e literatura clínica posterior sugerem perfil de respondedor melhor com características específicas. Primeira: transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP, BED) leve a moderado. Pacientes com episódios recorrentes de compulsão e perda de controle têm resposta superior à média. Estudos pequenos específicos (Grilo 2014, Stunkard 2016) reforçam esse uso.

Segunda: padrão de comer emocional sem fome física correspondente. Comer em resposta a estresse, ansiedade, tédio, tristeza. Comer entre refeições por gatilhos não fisiológicos.

Terceira: desejo intenso e seletivo por doces ou alimentos ultraprocessados. Em paciente cuja dificuldade principal é resistir a doces, chocolate, sobremesa noturna, redução de recompensa hedônica por bupropiona-naltrexona pode ser mais útil do que redução de fome física por GLP-1.

Quarta: tabagismo ativo ou recente. Bupropiona é fármaco de cessação tabágica. Em paciente obeso fumante, Contrave entrega dois benefícios em uma molécula.

Quinta: depressão leve a moderada concomitante. Bupropiona é antidepressivo aprovado. Em paciente obeso com sintomas depressivos leves, Contrave pode evitar dupla prescrição. Em depressão grave ou com ideação suicida, há precauções específicas.

Perfis menos favoráveis a Contrave: paciente cuja queixa principal é fome física constante (GLP-1 é melhor opção), paciente com diabetes tipo 2 mal controlada (GLP-1 ou tirzepatida superam), paciente com doença cardiovascular estabelecida (semaglutida tem indicação cardiovascular específica).

# Contraindicações críticas: epilepsia, opioides, anorexia, transtorno bipolar

Naltrexona-bupropiona tem lista de contraindicações importante que precisa ser conhecida antes da prescrição. Quatro grupos merecem ênfase.

Primeiro: epilepsia e história de convulsões. Bupropiona reduz limiar convulsivo de modo dose-dependente. Em doses altas, o risco de convulsão sobe. Contraindicação absoluta em epilepsia ativa. Contraindicação em condições que reduzem limiar (tumor cerebral, abstinência de álcool ou benzodiazepínico, alguns distúrbios eletrolíticos). Cautela em traumatismo cranioencefálico prévio.

Segundo: uso crônico de opioides ou dependência ativa. Naltrexona é antagonista opioide. Em paciente em opioide crônico (analgesia para dor oncológica ou crônica), naltrexona desencadeia síndrome de abstinência aguda. Contraindicação absoluta em uso atual de opioides. Em ex-usuário, há necessidade de janela de pelo menos 7 a 10 dias sem opioide antes de iniciar Contrave.

Terceiro: anorexia nervosa ativa ou bulimia ativa. Bupropiona aumenta risco de convulsão em paciente com transtornos alimentares restritivos por hiponatremia e desbalanço eletrolítico. Contraindicação em anorexia ativa. Em bulimia ativa, contraindicação relativa.

Quarto: transtorno bipolar não controlado. Bupropiona, como outros antidepressivos, pode precipitar episódio maníaco em paciente bipolar não tratado. Em paciente com diagnóstico de bipolar, prescrição exige avaliação psiquiátrica e estabilização prévia.

Outras precauções: hipertensão arterial não controlada (bupropiona pode elevar pressão modestamente), insuficiência hepática moderada a grave (metabolismo hepático), insuficiência renal grave, gestação e amamentação. Interações medicamentosas importantes com IMAOs (contraindicação absoluta), com fármacos que prolongam QT, com fluoxetina, paroxetina e outros inibidores potentes do CYP2D6 (ajuste de dose pode ser necessário).

# Dose, titulação e os primeiros 3 meses na prática

Contrave vem em comprimidos de naltrexona 8 mg + bupropiona 90 mg de liberação prolongada. Titulação padrão ao longo de 4 semanas para alcançar dose terapêutica de 32 mg de naltrexona + 360 mg de bupropiona por dia.

Semana 1: 1 comprimido pela manhã. Semana 2: 1 comprimido pela manhã + 1 à noite. Semana 3: 2 pela manhã + 1 à noite. Semana 4 em diante: 2 pela manhã + 2 à noite. Tomar com refeição reduz náuseas e melhora absorção.

Efeitos adversos comuns nas primeiras semanas: náuseas (em torno de 30 por cento dos pacientes), constipação (20 por cento), cefaleia (15 a 20 por cento), insônia (15 por cento), boca seca (10 por cento), tonturas. A maioria diminui ao longo de 4 a 8 semanas. Insônia pode ser persistente em alguns pacientes; ajustar segunda dose para mais cedo da noite pode ajudar.

Pressão arterial pode elevar discretamente nas primeiras semanas (média de 2 a 4 mmHg sistólica). Monitorar pressão semanal nas primeiras 4 semanas, mensal no primeiro trimestre. Em paciente hipertenso controlado, ajuste de anti-hipertensivo pode ser necessário.

Avaliação de resposta deve ocorrer aos 3 e aos 6 meses. ABESO e diretrizes internacionais recomendam suspender Contrave se perda de peso menor que 5 por cento aos 3 meses na dose plena (regra dos respondedores). Em paciente respondedor, manutenção segue por anos, similar a outros fármacos para obesidade crônica.

Diferentemente de GLP-1, descontinuação de Contrave tem padrão de reganho menos estudado em ensaios longos. Estudos sugerem reganho substancial após interrupção, mas menos dramático que o observado em STEP-4 com semaglutida. A obesidade segue sendo doença crônica, e expectativa de uso prolongado se aplica também aqui.

# A combinação que multiplica eficácia: Contrave + terapia comportamental

COR-BMOD mostrou perda média de 9,3 por cento com NB32 combinado a intervenção comportamental intensiva, vs 5 a 6 por cento sem intervenção. Esse achado é talvez o mais subutilizado clinicamente. Contrave funciona melhor em paciente engajado em terapia.

Terapia cognitivo-comportamental (TCC) para obesidade ou para transtorno da compulsão alimentar é a evidência mais sólida. Em paciente com TCAP, TCC sozinha tem eficácia comparável a Contrave em remissão de episódios compulsivos, e a combinação supera ambos isoladamente (Grilo 2014, Wilson 2010).

Mindfulness e mindful eating são complementares úteis em padrão emocional. Não substituem TCC em transtorno alimentar diagnosticado.

Em paciente com depressão concomitante, integração com psiquiatra é mandatória. Bupropiona em Contrave conta como antidepressivo, o que pode dispensar prescrição adicional, mas a dose pode não ser ótima para o quadro depressivo e ajustes ou trocas precisam ser discutidos.

Em prática clínica brasileira, a combinação mais eficaz é: endocrinologista para metabólico, nutricionista para reeducação, psicólogo treinado em TCC para comportamento alimentar, eventual psiquiatra se quadro psiquiátrico significativo. Sem essa rede, Contrave entrega apenas a fração farmacológica da resposta possível, e fica abaixo do potencial real.

# Contrave vs GLP-1: quando escolher cada caminho

Não é versus. São opções para perfis diferentes. A tabela mental clínica útil tem 4 colunas: tipo de comer dominante, IMC e comorbidades, comorbidades psiquiátricas, custo e acesso.

GLP-1 ou tirzepatida ganham em: paciente com fome física constante, alta densidade calórica de refeição, IMC alto (>35), múltiplas comorbidades cardiometabólicas (diabetes, hipertensão, dislipidemia), doença cardiovascular estabelecida (semaglutida pós-SELECT), perda de peso clinicamente urgente.

Contrave ganha em: paciente com comer emocional ou hedônico dominante, transtorno da compulsão alimentar periódica leve a moderada, desejo intenso por doces ou ultraprocessados, tabagismo concomitante, depressão leve a moderada concomitante, IMC menos elevado (27 a 35).

Custo: GLP-1 e tirzepatida custam R$ 1.000 a R$ 1.800 por mês. Contrave custa R$ 350 a R$ 600 por mês. A diferença de aproximadamente um terço a metade do preço pode ser decisiva em paciente que precisa de fármaco crônico e tem orçamento limitado.

Combinação Contrave + GLP-1: existe em consultórios privados como prática off-label, com racional de cobrir vias diferentes (saciedade + recompensa). Não há ensaios robustos sustentando essa combinação para população geral. Em paciente respondedor parcial a um dos fármacos, com TCAP residual ou comer emocional dominante apesar de GLP-1, combinação pode ser considerada por endocrinologista experiente.

# Custo Brasil 2026 e acesso real

Contrave (caixa com 90 comprimidos, dose mensal aproximada): R$ 350 a R$ 600 em farmácias brasileiras em 2026, com variação por região e canal. Programa de fidelidade do laboratório (Currax/Takeda dependendo da licença regional) pode reduzir 10 a 20 por cento.

Não tem cobertura SUS. ANS não inclui no rol obrigatório para obesidade. Cobertura por planos privados é rara e em geral exige indicação específica e justificativa.

Para o paciente individual em 2026, custo anual fica entre R$ 4.200 e R$ 7.200. Significativamente abaixo do custo de GLP-1 e tirzepatida (R$ 12.000 a R$ 21.600 por ano). Em paciente com perfil hedônico ou TCAP que responde bem, a relação custo-eficácia pode ser favorável.

Acesso prescritivo é amplo. Endocrinologistas, psiquiatras, médicos de medicina interna e até alguns ginecologistas prescrevem Contrave rotineiramente. Para indicações com componente psiquiátrico (TCAP, depressão concomitante), prescrição por endocrinologista em parceria com psiquiatra é a melhor combinação.

Comparativamente menos divulgado em mídia popular que GLP-1, Contrave tende a ser subprescrito. Pacientes com perfil ideal raramente sabem da existência da opção. Cabe ao endocrinologista identificar perfil e oferecer o fármaco como alternativa quando indicado.

# A próxima decisão a tomar essa semana

Se você tem IMC maior que 27 com comorbidade ou maior que 30, e o padrão do seu comer é claramente emocional, hedônico ou compulsivo, marque consulta com endocrinologista que tenha experiência com farmacoterapia da obesidade. Leve um diário alimentar de duas semanas com horário, contexto emocional e gatilho de cada episódio fora da refeição programada. Isso muda a conversa.

Se você fuma e tem obesidade, mencione explicitamente o desejo de parar de fumar. Bupropiona dentro do Contrave pode endereçar os dois alvos em um fármaco.

Se você tem episódios de compulsão alimentar diagnosticados (TCAP), considere consulta paralela com psicólogo treinado em TCC para transtornos alimentares. A combinação fármaco + TCC é a evidência mais robusta para perfil hedônico.

Se já usou GLP-1 ou tirzepatida e perdeu peso, mas o comportamento emocional persistiu, converse com seu endocrinologista sobre a possibilidade de uso adjuvante ou substitutivo de Contrave. Esta é decisão individualizada.

Para continuar, leia em seguida o artigo sobre GLP-1, Ozempic e Mounjaro (mesmo hub), que cobre a primeira linha em obesidade com fome física constante, e o artigo sobre creatina monoidrata, que protege massa magra durante qualquer fase de perda de peso.

Perguntas frequentes

Contrave funciona tão bem quanto Ozempic ou Mounjaro?
Em magnitude média de perda de peso, não. Contrave entrega 5 a 8 por cento em 56 semanas, Ozempic-Wegovy entrega 15 por cento e Mounjaro entrega 20 a 22 por cento. Mas Contrave tem um nicho específico em paciente cujo comer é dominado por componente emocional, hedônico ou compulsivo. Para esse perfil, com terapia comportamental concomitante, eficácia pode chegar a 9 a 12 por cento e a relação custo-benefício favorece em pacientes selecionados.
Quem não deve usar Contrave?
Contraindicações absolutas: epilepsia ou história de convulsões, uso crônico de opioides ou dependência ativa, anorexia nervosa ativa, transtorno bipolar não tratado, uso de IMAO, hipertensão arterial grave não controlada, insuficiência hepática grave, gestação e amamentação. Cautela em depressão grave com ideação suicida, em hipertensão controlada (monitorar pressão), em insuficiência renal grave e em uso de fluoxetina ou paroxetina (interação CYP2D6).
Quais os efeitos adversos mais comuns nas primeiras semanas?
Náuseas (cerca de 30 por cento dos pacientes), constipação (20 por cento), cefaleia (15 a 20 por cento), insônia (15 por cento), boca seca (10 por cento), tonturas. A maioria diminui em 4 a 8 semanas com titulação lenta. Pressão arterial pode elevar 2 a 4 mmHg sistólica nas primeiras semanas; monitorar. Em paciente hipertenso, ajuste de anti-hipertensivo pode ser necessário.
Quanto tempo até saber se Contrave está funcionando?
Diretrizes ABESO e internacionais recomendam regra dos respondedores: avaliar perda de peso aos 3 meses na dose plena (32 mg de naltrexona + 360 mg de bupropiona). Se perda menor que 5 por cento, considerar suspender. Em paciente respondedor (perda maior que 5 por cento em 3 meses), manutenção pode seguir por anos. Aos 6 meses, esperar perda média de 5 a 8 por cento em respondedores típicos.
Posso combinar Contrave com Ozempic ou Mounjaro?
Existe em consultórios privados como prática off-label, com racional de cobrir vias diferentes (saciedade incretínica + recompensa hedônica). Não há ensaios robustos sustentando essa combinação para população geral. Em paciente respondedor parcial a um dos fármacos, com TCAP residual ou comer emocional dominante apesar de GLP-1, combinação pode ser considerada por endocrinologista experiente. Converse com seu endocrinologista antes de cogitar combinações off-label.
Quanto custa Contrave no Brasil em 2026?
Entre R$ 350 e R$ 600 por mês para dose plena. Anual de R$ 4.200 a R$ 7.200. Não tem cobertura SUS nem está no rol obrigatório da ANS. Significativamente abaixo do custo de GLP-1 e tirzepatida (R$ 12.000 a R$ 21.600 por ano). Em paciente com perfil ideal e resposta robusta, a relação custo-benefício pode ser favorável.
Contrave ajuda em transtorno da compulsão alimentar?
Sim, em casos leves a moderados. Estudos como Grilo 2014 e Stunkard 2016 mostraram redução de episódios compulsivos e melhora em sintomas associados em pacientes com TCAP em uso de Contrave. A combinação fármaco + terapia cognitivo-comportamental tem evidência mais robusta do que qualquer uma isoladamente. Em casos graves, avaliação psiquiátrica é mandatória e outros fármacos (lisdexanfetamina) podem ser primeira linha.

Fontes consultadas

  1. Greenway et al., Effect of Naltrexone Plus Bupropion on Weight Loss in Overweight and Obese Adults (COR-I), Lancet · 2010
  2. Apovian et al., A Randomized Phase 3 Trial of Naltrexone/Bupropion for Obesity (COR-II), Obesity · 2013
  3. Wadden et al., Weight Loss with Naltrexone/Bupropion and Behavior Modification (COR-BMOD), Obesity · 2011
  4. Hollander et al., Effects of Naltrexone Sustained-Release/Bupropion Sustained-Release Combination Therapy on Body Weight and Glycemic Parameters in Overweight and Obese Patients With Type 2 Diabetes (COR-Diabetes), Diabetes Care · 2013
  5. Grilo et al., Naltrexone/Bupropion for Binge-Eating Disorder, J Clin Psychiatry · 2014
  6. Wilson et al., Cognitive Behavioral Therapy for Binge Eating Disorder, Arch Gen Psychiatry · 2010
  7. FDA Drug Approval, Contrave (naltrexone HCl and bupropion HCl extended-release tablets) · 2014
  8. Diretrizes ABESO 2024 e 2025 · 2025
  9. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Farmacoterapia da Obesidade · 2025
  10. ANVISA, Bula Contrave (naltrexona/bupropiona) · 2016
  11. Caixeta et al., Transtorno da Compulsao Alimentar Periodica e Farmacoterapia, Rev Psiq Clin · 2018
  12. Khera et al., Association of Pharmacological Treatments for Obesity with Weight Loss and Adverse Events, JAMA · 2016

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Como citar esta reportagem

ABNT: REDAÇÃO GESTÃOFITNESS. Naltrexona-bupropiona (Contrave): o fármaco que age no comer emocional. GestãoFitness, 2026-05-25. Disponível em: <https://gestaofitness.net/metabolismo/farmacos-suplementos/naltrexona-bupropiona>. Acesso em: data.

APA: Redação GestãoFitness. (2026). Naltrexona-bupropiona (Contrave): o fármaco que age no comer emocional. GestãoFitness. https://gestaofitness.net/metabolismo/farmacos-suplementos/naltrexona-bupropiona

Identificador canônico: https://gestaofitness.net/metabolismo/farmacos-suplementos/naltrexona-bupropiona

Fontes verificáveis na reportagem: 12

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